terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Dona Maria encerra a escadaria dissimétrica e dispõe sacolas pláticas à mesa, engole água gelada pelo filtro de barro enquanto uma gota rebelde escorre pelo queixo e rega os seios da mãe de 4 filhos, brota um sorriso negro. Ajeita maças entre bananas, guarda na geladeira ovos e mortadela, espaço curto no meio de latas de cerveja, arruma tudo antes do descanso no sofá, só falta a prestação do fim do mês e o sentador pago à suadeira será, definitivamente, dela. No açougue ouviu os relatos da noite anterior, acertos e desacertos, polícia, usuário e traficante, a santíssima trindade da favela e a lei do fiou, morreu. Sempre morrem os usuários que não pagam nas mãos dos traficantes que morrem quando não acertam com a polícia. E ela, Dona Maria, não usa, trafica, ainda menos policía. Deus do céu, o sinal dos tempos. Ergue a cabeça pela janela e estende-se a favela por tudo que ela olha. A televisão funciona, quanta tragédia. O Haiti, coitados. Negros em favela que morrem de fome se não roubarem, mas lá, no Haiti, não há o que roubar, é tudo uma grande favela e nossos ‘piriquitos’ protegem com a própria vida os bairros ricos (será que tem mais de um?) de toda a extensão pobre. É como aqui, polícia protege quem tem de quem não tem, questão de classe. A velha sentada sente saudade do abraço negro do filho que foi pra longe ganhar a vida, negro sem emprego fica sem sossego porque sente fome, a negra outrora deslumbrante jurava torpor a filho polícia, traficante, usuário. Cada um alheio em seu canto. O negro e seu canto. A mulher branca de sobrenome complicado diz que lá na América Central as crianças são órfãs e o povo precisa de ajuda, Dona Maria olha pela janela e suspira um, Coitados. Desgraça lá, fatalidade aqui. No morro grande e belo que despencou foi tragédia ambiental, a fúria da natureza, como lá no Haiti. No morro grande e feio que despencou a culpa foi do pobre, quem mandou construir lá? Mas isso é passado. Agora o mundo vê com Dona Maria que a tragédia no Haiti começou. Lá as pessoas estão morrendo, fome às crianças negras. Ao negro, raiz da liberdade.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Tudo que repousa nas prateleiras da biblioteca é criação humana. A criação humana é uma criação menor. Prisão ou liberdade de pensamento, criação menor, o fruto do intelecto humano é apenas parte de tudo que há por todo espaço geofísico que se pode notar. Das profundezas dos mares e do planeta a mais longínqua estrela, criação maior. E há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que sonha a tua filosofia.¹ Filosofia, cria da existência. Se a raça humana for exterminada nenhum livro de nada servirá, existindo ainda as bibliotecas com suas máquinas de café e toneladas de papel que o Senhor Seu Tempo devorará pacientemente, até que se constitua outra espécie que domine e escravize antes do último raio de luz que iluminará este planeta abençoado, se. Os livros existirão mesmo que não viva quem os leia.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O grito seco, proparoxítono, às costas do concentrado leitor de Saramago. Um tiro à queima roupa na testa do sujeito. À queima roupa na testa, se testa tem lá roupa. Rotineiro pode dizer, quarta ou quinta vez em 2 anos. Não precisava de mais nada além daquele acento sobre o a. Má.
Quando é domingo e não chove os infantos da periferia caçam à rua Reta, aos berros, bolas que mal rolam, não se lê. O Evangelho Segundo Saramago, Caim, espetacular. Certa vez redigi o Evangelho Segundo Márcio, com acento no a, não era argila, era merda de um Deus entediado que, na ausência de ocupação prodigiosa, criou um ser à sua imagem e semelhança com as fezes da recém cagada que dera no mato perto da Lago do Cosmos, peidou e deu vida ao homem. Não satisfeito da merda que tinha feito Deus foi lá e criou a mulher, para o homem um alívio, para o planeta a eterna condenação, a merda se perpetuaria eternamente, com pleonasmo para que entendais o tamanho desta Bosta filha de Deus. Divino e santo ócio. E para que se leia na periferia de domingo é preciso música instrumental em uns bons decibéis, Banda Black Rio para Saramago, concentração máxima, entrega de corpo e alma, cotovelos baseados à mesa e coração e mente a degustar a fantasia humana e a porrada na nuca anuncia, Abaixa o som, após o alucinante salto do coração à boca sucedido pelo, Márcio, apocalipse para Saramago.
O grito seco, Proparoxítono! Os pássaros que anuviam meu intelecto descansavam e tudo estava claro, o céu era azul num domingo de periferia e crianças chutavam bola, o acento no a se fez valer, está lá na certidão, despertou uma revoada que me trouxe até aqui.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O pôr-do-sol do Kobayashi é o mais lindo da cidade. Os prédios decidem o contorno do baixo horizonte. Orientado por um homem da lei, fumar degraus abaixo fora das vistas do velho coronel, chego para o ocaso e o espetáculo de cores lustrosas incendiando minhas pupilas dilatadas, entre telhados entrecortados, pela residência do cidadão presidente, por um prédio torto, soberano oblíquo cria do desperdício. Em homenagem a minha infância escolho o pé de goiabeira e divido espaço com as hostis operárias lava-pés cujas trilhas de feromônio expostas por toda a praça barbarizam os pés desavisados.
É só sentar e anoitecer com o páramo. Recosto à arvore comungo com o todo enquanto só. O silêncio comunga com a paz enquanto reina. E deixa de reinar com o cego mascando chicles, escoltado por um cão e tateando com uma varinha de passeio torta, corta a nuvem de fumaça e sorri. Sorri mascando chicles o cego e o cão rafeiro sorri com o rabo frenético, cercados pelo vapor canibinóico, abana o rabo e respiram. O boa tarde das dezenove e trinta foi o motivo das vozes. E o cego de varinha foi de passeio e escolta, levando a comunhão que encontrou.
Acusaram-me de fácil. Por não lutar pelo conforto, por rir sozinho. A calma pousa nos meus ombros e escorre por todo corpo quando lembro que todos se acusam, tudo faz parte de um jogo obscuro do instinto animal que eu nunca compreendi, por isso não joguei. Quem deserta à guerra é desprezado pela pátria. Uma mão no volante outra no telefone, uma picape preta desembesta pela curva, na direção roleta russa conta com a sorte tão apenas, homem de fé, bola de neve. Nas mãos as diversas sementes me deram escolha e escolhi a que plantar, curioso dos frutos que iria colher. Bisbilhoto a ilusão de outras ramas, quem agora eu seria de gravata, o sapo redimido entrando na carruagem do ano, minha princesa solícita, apaixonada por tudo o que eu tenho, tanto faz. O que eu sou é o que eu escolhi ser. Por isso respiro fumaça no poente de tênis velho, roupa rasgada e cabelos brancos, faro cheiro das frutas e o perfume de mulher que muda o vento, agora oeste, deixa o rastro antecipado a cardar hesitação.
A bela borboleta arredia foi se exibir noutra neblina. Aqui só bateu asas, inclinada. Nada de pousar. Escapa incógnita, adoro borboletas, deixa voar. Delicada, rosa e preto como a moça que desce entre as árvores, vai deixar seu perfume em mim e sumir pelo negrume da já erma e ainda arborizada rua do bairro. Verei ela passar e sumir por aí. Vai passar. Procuro a ventura outrora encontrada no olhar particular das estudantes de história. No íntimo, lamento que não seja Chapeuzinho, já crescida, levando os doces para a vovó. Poderíamos permutar, adoro doce e acho que ela gosta de dar um, dois. Ela tem o açúcar, eu a pimenta. Nessa floresta, não sou lobo nem caçador, não me cabe. Não tem cabimento alguém nessa floresta só olhando, encantado por uma imagem bebendo pelo canudo. Eu querendo ela e outra mulher. Eu querendo e ela outra mulher. Eu olhando a foto dela. Ela me lendo. 0 a 0. Uma lava-pé escala minha perna, enquanto a desvio para uma folha, a dona sem rosto passa e o vento permanece, levando os aromas para longe, rumo ao sol só por um triz livre das trevas. Já não.
A fome avisa que devo caminhar, a lua indica para onde. Lanço a guimba próximo às formigas, se a levam o fungo será canábico e no formigueiro a orgia. De terno malajustado aparece um amarelão com pressa, arfante, enxuga a testa suada e guarda o lenço no bolso da camisa laranja submetida à gravata vermelha, remontam a transição do firmamento há pouco. Pneus gritam longe e o homem diminui o passo, me olha e faz careta concomitante ao som da pancada, como a de um saco que cai do topo e dilacera seu conteúdo. Torno e vejo o rosto da dona perfumada. As vestes negro-rosas talhadas pela rua e sobre o sedã prata abandonado atrapalhando o usuário do telefone publico que clama por ajuda ao fato trágico, há sangue nos enfeites emaranhados e no traço branco do gorro vermelho pendurado no portão de penduricalhos de uma casa viva. Prostrado metade inteira sobre a calçada, metade estraçalhada no meio fio, o corpo, morto? Jaz a cabeça junto ao seio como que se ouvisse o próprio coração parado.
- Pancada da porra! - e secou suor de novo.
Pelo reflexo da lente do óculos do amarelão de gravata eu via as luzes rubro verdes iluminando à proximidade do natal, e lembrei que uma sobremesa me espera em casa.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Alegre vem a chuva,
Em fúria, a tempestade.
As telhas tremem!
Os sapos coaxam
na grama que ri
das árvores que sacodem...
(gotas verd'as folhas)

Os homens fogem,
Fujam! Fujam!
Lá vem o monstro alimentado!
Guardem as chuvas, os guardas-chuva
Aguardem as chuvas,
Construam muros, diques, arcas!

Lá vem a chuva molhar as ruas,
Levar à lama, levar as gentes
Lá vem as chuvas e nunca
a Água há de acabar!


Jami e Cito Rodrigues

sábado, 9 de janeiro de 2010

"A lua, que é a própria imagem do capricho, olhou pela janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo, mesma: - "Esta criança me agrada."
E desceu maciamente a sua escada de nuvens, e deslizou sem ruído através das vidraças. E pousou sobre ti com um suave carinho de mãe, e depôs as suas cores em tuas faces. Então, tuas pupilas se tornaram verdes, e tuas faces extraordinariamente pálidas. Foi contemplando essa visitante que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste, para sempre, com o desejo de chorar.
Entretanto, na expansão da sua alegria, a lua invadia todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe luminoso; e toda esta luz viva pensava e dizia:
- Tu sofrerás eternamente a influência do meu beijo.
Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde não estiveres; o amante que não conheceres; as flores monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que desmaiam sobre os pianos e gemem que nem as mulheres, com uma doce voz enrouquecida!"

Os Benefícios da Lua - Charles Baudelaire

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Embriagado com seu beijo
Me perdi pela cidade
Soneguei idade
Em nome do desejo

Um coração que me abrigue
Era a procura
O seu abraço, a cura
O seu nome?

Você que, como uma punhalada
Meu coração triste invadiu,
Você que, forte como manada
De demônios, louca surgiu

Faz em mim uma bagunça
Com esse olho de ilha deserta
Assim eu senti, nunca
Esperança de felicidade certa

Essa voz doce que conforta
Minha vida insana e torta
Profere grandes dizeres
Faz-me ter fé na calma
Acalanta minha alma
Desperta estranhos poderes.

Pequena
Não sei o que faço
Para ter seu abraço
Enquanto respirar.
Se errado fizer
Foi querendo acertar
Mais ainda te amar
Pra lhe ter como mulher.