domingo, 15 de março de 2009

Milano Sessions em São Paulo, quarto de pensão, a notícia e a forma como eu trato.

Ela entrou e fechou a porta querendo preservar o silêncio no quarto. Tirou os sapatos, colocou a bolsa sobre o criado mudo, sentou no sofá e acendeu um cigarro de maconha. No primeiro tapa, ouviu barulhos vindos do banheiro e notou que a porta estava fechada. Levantou devagar e assim seguiu até perto do mictório onde pousou uma das orelhas sobre a porta afim de auscultar o interior do recinto sem manifestar sua presença. Já a conheço, sinto-a presente, alugou nosso ninho de amor, o marido dela paga. Penso enquanto sentado ao vaso. Um sabonete branco e uma toalha rosa, a descarga acionada e a tampa abaixada, abri a porta e senti um cheiro forte no ar: era Maria que já devia ter chegado.

Ela sempre teve essa mania de não fazer barulho e esse é um dos grandes motivos pelo qual me reapaixono por ela todos os dias, sutileza, delicadeza e amor ao silêncio.

Há no ar além do odor. Ela sorri e eu me fascino, a vejo, ouço os passos no chão de tacos depois abafados pelo tapete, o vestido verde no mês de março. Ela me oferece o cigarro e vai para o estéreo, liga as potências, a mesa e o tocador. Ouvindo Baker. Ouvimos o trompete de Chet e a voz doce e certa dela anuncia sobre 'I Should Care' que aquele é o último cigarro do ano que fumamos juntos. Caem as alças e o vestido escorrega pela pele morena e macia, desliza deliciosamente pelo cálido corpo de mulher de Maria, até o encontro com um tapete azul, da cor do céu, da cor do mar. Unhas bem feitas sem tinta, tez hidratada aconchegante como veludo, seus braços roçam meu pescoço e as mãos pousam sobre meus ombros, caio de joelhos diante dela e me tem a cabeça sobre seu ventre. É o último canábico. Ela carrega dentro de si a vida do filho, ela diz que é do marido e eu acato. Diz que é a hora dos últimos prazeres: Vai parar de fumar.
É também a última vez que goza assim.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Eluana, Eutanásia

Adocei o chá e levantei a xícara pela asa. Ela acompanhava meus gestos e quando o mate preto alcançou minha boca, indagou.
"Você viu aquela mulher em coma na Itália... Que triste, querem mata-lá. Em nome de Deus, quem eles pensam que são?"
O mate desceu goela abaixo, a xícara repousou sobre a mesa; o palito incandesceu e baforei o primeiro trago antes de colocar.
"Se era vontade dela, nem Deus é contra, Ele deu e respeita o livre arbitrio. Se for errado, ela paga depois. (pfu)
Em tempos onde a tecnologia era pouca, nenhum religioso procurou a ciência afim de encontrar um modo onde o sofrimento fosse prolongado para pagar os pecados. Desprezam a ciência mas usam dela para tentar, a cada dia, fugir do encontro com Deus, prolongando a vida com drogas e evitando o próprio infortúnio.
Ela não está viva pela vontade de Deus, o Senhor a levou em 1992 naquele acidente de carro. Ela está vegetando pela vontade dos homens, que, em posse do seu corpo, alongam a existência daquela massa de carne sem alma, espírito, um lampejo sequer de vida animal.
Será que os religiosos são tão cegos e egoístas que só enxergam a fé deles e não são capazes de entender que aquele corpo inerte sobre a cama não tem mais Eluana lá dentro?"
Ela tossiu indicando que a fumaça a incomodava.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Bebaço

Um bebado
Escreve no papel
Rabisca à solidão


Infeliz...


Imagina
Do tamanho do céu
Sua sina, imensidão.


Por um triz...


Ela
Que trouxe o mel
Na esquina, aceno de mão.


Inexiste.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Nota de uma manhã de quinta feira em fins de agosto

Quando acordei por volta das 10 da manhã, com os gritos e palavrões dos moleques que corriam alucinados atrás da pelota de couro surrado, ele já chorava. Entre os palavrões berrados com a plena convicção de quem nada sabe, Mateus também gritava por algo que sua mãe agoniada tentava descobrir, ora uma com os cabelos entre as mãos. ora outra cantando canções infantis com o filho no colo. Em alguns momentos o pranto do rebento recém-chegado cessava, para em pouco retumbar novamente.
Aos poucos esvaíam os gritos daqueles pivetes que chutavam bola de pé descalço no asfalto preto, finando o futebol assim que o sol apareceu no meio do céu entre a densa camada de poluição. A agonia de Mateus continuava, agora dividia espaço com o ronco das peruas escolares lotadas de outras crianças que esperneavam neuroticamente entre elas e os 'tios' condutores e com o cheiro do almoço requentado com bife acebolado que subia entre as paredes das 4 casas da Rua Reta.
Eu não tenho filhos, quando escuto o choro descontrolado de uma criança por mais de 5 minutos os nervos afloram. Aquela mulher já aguentava por mais de 2 horas uma linha intermitente de gritos estridentes e respiros ofegantes de um pulmão pequeno, potente e irritante. Quando tirei a última batata da fritura, os gritos eram tão fortes que Mateus parecia estar do meu lado, sendo este o momento do ápice onde a mãe, num repente desespero, ligou o rádio num volume considerável e começou a cantar bem mais alto que os gritos do aflito menino. "The Last Time I Saw Richard - Joni Mitchell" estava tocando na hora do almoço. A ausência de manifestações infantis durou os 5 minutos da música e mais uns 5 depois. Eu não me incomodei com os gritos de Mateus, já tinha ficado puto o suficiente com os jovens boleiros me tirando do sono ao som dos clamores por justiça ao juíz "filho da puta foi falta nessa porra do caraio", o que me prendia era o comportamento da mãe, mulher discretíssima, naquele estado de nervos, santo desespero, sabe se lá o que passa na cabeça duma pessoa exposta a uma situação de extrema irritabilidade, diante a incapacidade de solucionar um problema severo. Imagino uma comparação daqueles berros com uma dor de dente latejante, sendo o analgésico dela o estéreo sintonizado na Alpha. Pior que aspirina, cabe dizer, durou nada pois o pranto logo recomeçou.
Da janela onde eu tragava após o almoço vi a mãe que andava de lado para outro pela cozinha falando ao telefone, que logo desligou, e tateando sobre os móveis antes de bater a porta e tentar abrir o portão. Suas mãos tremiam tanto que deixou a chave cair por 3 vezes antes de sair transtornada pela rua, descalça, como os moleques que corriam atrás da pelota antes do meio do dia. Estaria ela, mulher da igreja e prendada, abandonando o filho no ápice da agonia?
Não.
Estava vindo e tocando a campainha da minha casa. Ela estava suada, descabelada, com os lábios secos e falava baixo. "Eu preciso fazer um chá pra acalmar meu filho, minha camomila acabou, você não tem um pouco aí pra me emprestar?". Naquele momento pensei em quanto ela estava sofrendo à toa, poderia ter economizado 2 horas de desespero vindo aqui antes, mas o que ela disse depois foi o que mais surpreendeu. "Você não tem um cigarro daqueles para eu fumar? Daquele com cheiro forte que você fuma na janela de noite?". Foi só aí que os olhos dela perderam por pouco o foco no desespero. Claro que sim, é um prazer ver um careta andando por aqui. E entrou pelo portão com um punhado de erva na mão. Quando comecei a lavar a louça já não ouvia mais grito, nem choro, nem música nenhuma, nada além de grilos cricrilando ruidou até os trovões que antecederam a chuva na Rua Reta. Dormiu Mateus, futuro cantor de ópera. Se a mãe voltar, futuro cantor de reggae.